Como identificar serpentes peçonhentas (cobra venenosa)

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Cascavel-de-quatro-ventas (Crotalus durissus)
Cascavel-de-quatro-ventas (Crotalus durissus)

Aprender como identificar serpentes peçonhentas é muito importante para quem lida com a natureza pois, cedo ou tarde, você irá se deparar com uma. A identificação correta é um assunto polêmico e cheio de contradições, portanto resolvemos escrever este artigo para ajudar você a identificar corretamente se uma espécie é ou não peçonhenta. Portanto tenha muito cuidado com generalizações errôneas encontradas pela internet.

Este artigo, com orientação do herpetólogo Saymon Albuquerque, tem assim o objetivo de realizar dois tipos de identificação:

  1. Se uma determinada espécie é peçonhenta ou não
  2. Qual espécie é

Primeiramente, vamos entender algumas diferenças entre os termos antes de prosseguir com as identificações.

Cobra ou serpente?

Cobra não é exatamente um termo incorreto, mas é um termo europeu que se refere à alguns tipos específicos de serpentes (como a naja e a cobra-rei) e não à todos. Serpente, entretanto, é um termo mais abrangente e adequado. Na prática, contudo, ambos os termos são aceitáveis.

Venenosa ou peçonhenta?

Venenosa é um termo que se aplica a qualquer espécie que produza veneno. Normalmente é um mecanismo de defesa e o envenenamento ocorre ou por contato ou ingestão por parte do agressor.

Peçonhentas são aquelas que têm a capacidade de inocular (introduzir) este veneno, seja por meio de um esporão, ferrão ou dentes, seja por algum outro dispositivo. Assim sendo, servem como mecanismo de ataque (caça) e defesa. Na prática usam-se ambos os termos como sinônimos, mas eles têm esta diferença técnica.

Portanto, seja cobra venenosa ou serpente peçonhenta, popularmente ambos são aceitáveis.

Jararaca-malha-de-sapo (Bothrops jararaca)
Jararaca-malha-de-sapo (Bothrops jararaca)

Identificando se uma espécie é peçonhenta ou não

Alguns parâmetros de identificação caíram por terra conforme foram descobertas novas espécies. Antes de mais nada, entenda como eram identificadas antigamente as espécies peçonhentas.

Como ERA feita a identificação

Antigamente acreditava-se que serpentes peçonhentas tinham:

  1. Cabeça triangular
  2. Pupila com fenda (vertical ou elíptica)
  3. Escamas eriçadas
  4. Cauda que se afinava bruscamente em relação à espessura do corpo

Ou seja, pensava-se que, tendo essas características, se tratavam de serpentes peçonhentas. Com o avanço do conhecimento, novas espécies foram descobertas e, assim sendo, essas teorias, que foram trazidas pelos portugueses com base nas serpentes europeias, se mostraram ineficientes ao se tratar de espécies brasileiras.

Apesar de não serem totalmente verdade, elas ainda podem ser usadas para nortear a identificação.

Exceções

  1. Cabeça triangular – Embora as viperidae tenham a cabeça triangular, esta característica não é exclusividade de serpentes peçonhentas. As jibóias, por exemplo, possuem a cabeça triangular, mas não são peçonhentas, matando sua presa por constrição e não por veneno.
  2. Pupila com fenda (vertical ou elíptica) – Também é uma característica das viperidae, mas não são exclusiva delas. Exceções ficam para as corais-verdadeiras, que são peçonhentas e possuem pupila arredondada. Algumas outras espécies peçonhentas podem apresentar suas pupilas em fenda tão dilatadas que seriam facilmente confundidas com pupilas arredondadas.
  3. Escamas eriçadas – Algumas espécies de cobra-cipó não são peçonhentas, mas possuem escamas eriçadas.
  4. Cauda que se afinava bruscamente em relação à espessura do corpo – Em geral esta é uma característica de fêmeas e não necessariamente da presença de veneno. Machos (peçonhentos ou não) costumam ter a cauda que afinam suavemente ao longo do corpo.

Além dessas características, também pensava-se que as peçonhentas eram noturnas, lentas e enrodilhavam, entretanto novas espécies descobertas mostraram que algumas não-peçonhentas também podem apresentar esses comportamentos.

Fosseta loreal
Fosseta loreal

Como saber então se uma espécie é peçonhenta?

A única forma segura para identificar uma espécie peçonhenta é pela presença da fosseta loreal. A fosseta loreal é um órgão que fica entre a narina e o olho e tem a função de um receptor térmico, dessa forma é responsável por perceber variações de calor no ambiente. É grande auxiliar na caça noturna de animais de sangue quente, uma vez que serpentes não tem uma boa visão, dependendo desta percepção de calor e do olfato.

A peçonhenta exceção para esta regra da presença de fosseta loreal é, pois, a da coral-verdadeira.

Como identificar o tipo de espécie peçonhenta?

No Brasil existem em torno de 400 espécies conhecidas de serpentes, sendo que cerca de 60 delas são peçonhentas. As peçonhentas podem ser divididas em duas famílias: a viperidae e a elapidae.

Na família das viperidae temos as jararacas, bem como as cascavéis e as surucucus. Na família das elapidae temos as corais-verdadeiras.

Para identificar a espécie (após ter identificado a presença da fosseta loreal), você deve observar primeiramente a cauda da serpente. Pelo tipo de cauda você identifica a espécie das viperidae:

Viperidae

Cauda Lisa (sem modificação): Jararaca

Cauda lisa da Jararaca
Cauda lisa da Jararaca

Cauda com chocalho: Cascavel

Chocalho da Cascavel
Chocalho da Cascavel

Cauda com escamas eriçadas:  Surucucu

Cauda eriçada da Surucucu
Cauda eriçada da Surucucu

Elapidae

Pela cor você identifica facilmente a elapidae, já que as corais são famosas pelo padrão de faixas vermelhas, brancas e pretas (mas nem todas…veja no próximo parágrafo). A dificuldade está em diferenciar qual espécie é peçonhenta (coral-verdadeira) ou não-peçonhenta (falsa-coral), uma vez que elas não possuem, como já foi dito, a fosseta loreal. Embora alguns padrões possam talvez identificar as espécies peçonhentas de algumas microrregiões, não há uma regra segura com base no padrão de cor para se identificar qualquer coral e que seja válida em todo o território brasileiro uma vez que várias exceções estão presentes no país. Alguns ditados foram criados como “Vermelho com amarelo perto, fique esperto. Vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado.” para identificar quais espécies oferecem ou não perigo mas certamente não correspondem à verdade ao se referir à todos os tipos de corais brasileiras.

Além disso, algumas corais podem não apresentar uma das três cores em seus anéis. Existem, por exemplo, tipos que só possuem anéis pretos e brancos, sem o vermelho. Em outras, ora o branco pode estar um pouco mais amarelado ora o vermelho um pouco mais alaranjado. Como se pode ver, identificar corretamente as corais não é pra qualquer um! Portanto quando se trata de Brasil, sendo leigo, o ideal é você tratar toda coral como verdadeira!

Padrão de cor da Coral
Padrão de cor da Coral

Simplificando o raciocínio:

Como identificar serpentes peçonhentas (cobra venenosa)
Clique para ver como identificar serpentes peçonhentas

Curiosidades à respeito destas espécies:

Jararacas – Gênero: Bothrops. Responsável pela maioria dos acidentes no Brasil.

Cascavéis – Gênero: Crotalus. Cada anel do chocalho corresponde à uma troca de pele (e não necessariamente à um ano de vida como se pensava).

Surucucu – Gênero: Lachesis. É a maior espécie peçonhenta do Brasil, podendo chegar a 3,5 metros. Seu bote é maior que o das outras serpentes.

Coral-verdadeira: Gênero: Micrurus. Picam sem dar bote.

Outras espécies conhecidas por serem peçonhentas, na verdade, pertencem a um dos quatro gêneros citados. A urutu-cruzeiro, por exemplo, apesar de parecer uma espécie à parte, é um tipo de jararaca, tanto é que seu nome científico é Bothrops alternatus (Bothrops = gênero das Jararacas).

Cuidado:

Uma observação importante a fazer é que o fato de uma serpente não ser peçonhenta não significa que ela não ofereça riscos uma vez que elas ainda podem picar!

Não mate as serpentes! E lembre-se: elas são animais protegidos por lei!

Como identificar serpentes peçonhentas

Confira, no vídeo abaixo, a explicação de Saymon Albuquerque sobre serpentes peçonhentas.

Agradecimento: Sargento Araújo

Agradecimento e consultoria técnica: Saymon Albuquerque – Biólogo e professor

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