Entrevista com Cacique Kayrrá

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É sempre bom rever os amigos. Pensando nisso, fomos no dia 08 de dezembro até a 28º Feira Internacional de Artesanato, no Expominas, especialmente para encontrar com um grande amigo indígena, o Cacique Kayrrá.

 

Conhecemos Kayrrá já a algum tempo e sempre mantemos contato. Ele é um grande conhecedor da natureza e dos costumes de sua tribo e um amigo muito atencioso. Fomos à feira exclusivamente para reencontrá-lo e durante nosso tempo lá, batendo papo e contando histórias, tivemos a ideia de fazer esta entrevista. Assim, mostramos para vocês, nossos amigos, um pouco mais da fantástica cultura indígena, tão diversa e incrível, e na maioria das vezes, desconhecida para a maioria dos brasileiros.

 

 

Kayrrá realiza vivências onde mostra para não-índios os costumes e as tradições de seu povo, os Kariri-Xocós, situados no estado do Alagoas na divisa com Sergipe. Além das vivências, ele também é guia em trilhas pelas matas, faz rituais xamânicos, oficinas de cachimbo e maraca, apresentação de canto e dança vende artesanato típico de sua tribo.

 

 

Antes de começar a entrevista, Kayrrá pediu quer registrássemos o seu canto.

 

 

Conheça um pouco mais sobre o nosso amigo e seu povo:

 

Kayrrá, onde está localizada a sua aldeia?

R: Na cidade de Porto Real Colégio, no Estado de Alagoas, na região do Baixo São Francisco, próximo à divisa com o Estado de Sergipe. A aldeia está a 100 metros da margem do Rio São Francisco.

Qual a quantidade de pessoas na sua aldeia?

R: São 4.000 índios Kariri-Xocó.

Desses 4.000 índios na aldeia, quantos são Kariri e quantos são Xocó?

R: São 3.000 índios Kariri e 1.000 índios Xocó.

Os Kariri-Xocó possuem somente uma aldeia?

R: Sim, porém existem várias tribos raízes da Kariri-Xocó.

Como os Kariris e os Xocós se tornaram uma única tribo?

R: Os Kariri, da qual eu faço parte são do Estado do Alagoas, já os Xocó são da cidade de Propriá, no Estado do Sergipe. Os Xocó, por terem sido expulsos de suas terras, atravessaram o rio e foram acolhidos pelos Kariri, formando então os Kariri-Xocó.·.

Tem algum idioma especifico do Kariri-Xocó?

R: Sim, o idioma kariri-xocó do macro-gê (Nota dos entrevistadores: idioma pertencente ao tronco linguístico macro-gê).

Quais os alimentos típicos dos Kariri-Xocó?

R: A nossa comida preferida é o peixe e a caça, mas nós estamos preservando. É uma cobra, é um tatu, um preá, uma rolinha, um camaleão e por aí vai, só que não estamos comendo mais, estamos preservando. Tem também o mucunzá, a minha mãe é especialista.

É um alimento exclusivo dos Kariri-Xocó?

R: Sim, tem o mucunzá, o arroz doce, a pamonha. Essa é a nossa comida. Ao chegar à nossa aldeia, tem que ter o mucunzá e o arroz doce. (N. dos Es.: segundo ele, o mucunzá é diferente do mungunzá, apesar de parecer se tratar do mesmo alimento)

Conte-nos sobre algum costume específico que só os Kariri ou só os Xocó tem?

R: Muitos anos atrás segundo os meus avós, quando era apenas Kariri, era um costume dançar o Toré, um ritual sagrado dançado somente dentro da aldeia. Quando se tornou Kariri-Xocó, saímos para a cidade para fazer a dança, que ainda se manteve o Toré tradicional, mas feita para pessoas de fora da aldeia verem.

Tem algum outro ritual além do Toré?

R: Existe sim, o Ouricuri, que é um ritual sagrado e que só pode ser realizado por índios. Já o Toré é também sagrado, mas pode ter participação de não-índios.

Qual a função do Toré? E qual a do Ouricuri?

R: O Toré a gente quando dança com os pés no chão, pedimos aquela energia positiva pra Deus, para proteção e para que tudo dê certo, para onde vamos, para o que plantamos e o que comemos. Já o Ouricuri não posso revelar por ser um ritual sagrado.

Você acha que o índio tem perdido muito as suas características por conta da interferência do homem branco ou sua tribo consegue ainda manter as características e os costumes?

R: Nós ainda conseguimos manter, mas não é 100%. Como permitimos que um índio/índia Kariri-Xocó case com não-índios, alguns costumes são mudados mas mesmo assim, com muita luta, tentamos manter as raízes.

Qual a principal característica do povo Kariri-Xocó?

R: Tanto a minha família quanto a aldeia inteira somos guerreiros. Eu acredito que até os outros índios das outras aldeias também são guerreiros.

Para poder manter a luta, né?

R: Sim, para poder manter a luta, manter a tradição e tem também o preconceito.

Você é cacique da sua família?

R: Sim, eu sou o cacique do grupo Kaçafeyta da minha família, não sou cacique da aldeia. Também não quero. É muita responsabilidade!

Os jovens da sua aldeia costumam manter as tradições? Ou com o contato com o branco e a tecnologia, eles têm se afastado?

R: Com a minha aldeia é muito grande, mais de 4.000 índios, tem alguns jovens que querem escapulir mas não é maioria. Os outros vão lá, chamam e conversam com ele, e ele acaba voltando as suas origens.

O Governo Federal selecionou alguma área específica para a aldeia?

R: Nós temos uma área indígena que é nossa, que eles garantiram, mas não é uma área suficiente, porque juntaram duas tribos e não é uma quantidade de terra adequada para todos.

O Governo Federal dá alguma outra garantia além das terras?

R: Não, a garantia é Deus. Cada índio tem que lutar para manter a ele e a sua família, pois o governo não ajuda em nada.

O que o povo de sua tribo faz para se manter economicamente?

R: Vendemos artesanato.

O que você acha que o Governo e a sociedade como um todo poderiam fazer pelos índios?

R: Não só o Governo, mas os brancos e os não-índios deveriam respeitar, porque nos somos os primeiros habitantes da terra… a terra é nossa! Eles não respeitam, pelo contrário, querem até tirar o nosso direito de índio. Eles não vão conseguir nunca. Querer é uma coisa, poder é outra… e eles não vão poder NUNCA!

Contato Cacique Kayrrá:

Telefone: (11) 9 8705-4016 / 9 7204-7787

Site: http://kayrrakaririxoco.com.br/

Como nosso amigo constantemente está imerso em matas pelo nosso país, muitas vezes é impossível contactá-lo. Sendo assim, ele pediu que colocássemos nossos telefones caso ele não esteja acessível.

Entre Trilhas e Aventuras:

Reinaldo Figueiredo: (31) 9 9119-5198

Priscilla Suelen: (31) 9 8635-9651

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