Michelle Sant’ana- Mulheres Aventureiras e seus desafios

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Nos últimos tempos, as mulheres tem alcançado cada vez mais espaço na sociedade, bem como na carreira profissional, sendo empreendedoras, tendo cargos de destaque em grandes empresas, na política, como grandes cientistas no meio acadêmico, no meio esportivo,etc. Isso por ser advindo das discussões atuais sobre emponderamento feminino, que tem tomado a mídia, consolidando, ainda mais, o poder que uma mulher tem. A Maior parte dessas ações certamente têm sido positivas para a conquista das mulheres e, na prática das atividades e esportes de aventura, não é diferente.

Contudo, se comparado aos homens, somos minoria nas atividades outdoor. Assim sendo, quais seriam os possíveis motivos para tal fato? Falta de oportunidade, medo da exposição ao ambiente, falta de motivação e de respeito pelo fato de ser mulher? Pensando na quantidade de questionamentos acerca do universo feminino e também a fim de comemorar ao Mês da Mulher, tivemos a ideia de fazer uma entrevista guiada, com mulheres que são representantes em vários esportes e atividades outdoor, como hiking, trekking, montanhismo, escalada, canionismo e mountain bike.

Cada dia da semana vocês conhecerão uma mulher que, inegavelmente com muita garra e vontade, mostram que somos aventureiras e capazes de tudo!

Conheça afinal a mulher aventureira de hoje!

Michelle Sant’ana

Trilha ao Fitz Roy-Patagônia


Atividade de aventura: Trekking, Hiking.


Há quanto tempo iniciou: Cerca de 10 anos.


Redes Sociais:
Instagram: @michellesantana156

Como iniciou nas suas aventuras com uma mochila nas costas?

O amor por trilhas se iniciou em meados do ano 2008 quando um amigo convidou-me para um mochilão pela América do Sul. Contemplaríamos em nossa rota Foz do Iguaçu, o Norte da Argentina e algumas cidades da Bolívia, dentre elas o sítio Arqueológico de Tiahuanacu e o Salar de Uyuni. Esta foi a minha primeira viagem não apenas sem a minha família por perto, mas também a primeira internacional e a primeira “de mochila”. Quanta novidade! Dessa forma esta viagem foi um divisor de águas em todos os sentidos. Sem dúvida conheci novos mundos dentro e fora de mim.

Quais são os seus maiores medos durante uma viagem?

Meus medos sempre perpassam por problemas de saúde, portanto são aqueles que eu não posso controlar. Dessa maneira procuro me preparar sempre para correr os mínimos riscos naturais. Ter sempre as vestimentas e os equipamentos necessários para cada percurso, buscar o máximo de informação possível antes de iniciar a aventura assim como seguir as instruções peculiares a cada local.

Quais foram as principais experiências positivas e negativas que você teve ao viajar e conhecer outras culturas?

Viajar amplia o significado de mundo, remonta a pessoa que sou, como diria Heráclito “nenhum homem pode se banhar duas vezes no mesmo rio”. Jamais fui a mesma após conhecer outros lugares, outras pessoas e suas realidades. Já me apaixonei por luas e montanhas, e é isso que move o meu espírito em direção a novas experiências. =)

Você percebeu alguma diferença de tratamento por ser mulher nos lugares que foi?

Ser mulher em nossa sociedade demanda, inegavelmente, coragem e persistência para superar as amarras do preconceito. A experiência de ser tratada de igual para igual nem sempre é possível. Mas ao refletir sobre o que é ser uma mulher mochileira e trilheira, sorrio e lembro-me que a motivação e a empatia sempre marcaram os meus caminhos.

Sei que devo essa boa experiência aos excelentes profissionais, os quais eu tive a honra de conhecer bem como os amigos que sempre estiveram ao meu lado nas trilhas respeitando os meus limites e auxiliando o tempo todo, seja com um sorriso, uma palavra de motivação, ou ao dividir água e alimentação (mandioca, não é Pri? rs). Assim também aos desconhecidos que encontrei pelos caminhos que sorriam, cumprimentavam…. e nos momentos de nítida exaustão diziam “força, já está chegando”, “você consegue” surpreendentemente ofereciam ajuda sempre e sempre.

Você se sente segura como mulher praticando a sua atividade?

Considero-me segura conforme pratico a minha atividade sempre acompanhada de pessoas de extrema confiança.

O que você desejaria que mudasse?

Certamente não me sinto segura para me enveredar sozinha, infelizmente. Portanto, é necessário um longo caminho para que as mudanças socioeconômicas e culturais em nosso país deem bons frutos. Assim sendo poderemos, no futuro, desfrutar de um passeio sozinhas até mesmo na cidade.

Qual a ação que todas as mulheres e também homens poderiam tomar para tornar isso diferente e termos maior igualdade?

Acredito que deixar práticas preconceituosas de lado e tomar atitudes que envolvam levar ajuda a quem necessita, possam melhorar a posição da mulher não só nas viagens ou trilhas, mas de maneira geral.

Houve algum momento de superação durante as suas viagens ou posteriormente a elas?

Durante este tempo vivenciei vários momentos de superação. Em primeiro lugar, creio que o maior desafio sempre foi romper a barreira de minha limitação física. Mas escolho um que foi um marco em minha vida. Em dezembro de 2016 saímos para uma viagem de 30 dias pela Patagônia. Eu havia iniciado treinos específicos para esta viagem em julho/2016. Foram várias “Sendas”, em climas e terrenos diferentes dos quais eu conhecia. Mal imaginava que a última seria a minha maior surpresa, o que marcaria para sempre minha alma com lembranças de dias de beleza e superação.

Acordamos bem cedo em Él Chaltén e seguimos de van em direção ao Parque Nacional Los Glaciares. Faríamos a “Senda” ao Monte Fitz Roy. Chegamos ao parque e tínhamos hora contada voltar, pois pegaríamos um ônibus para El Calafate naquele mesmo dia. Optamos por ir de van por um caminho e voltar caminhando até Él Chaltén, o que iria nos render 24 km de aventuras.

O início da trilha foi uma mescla de medo e deslumbramento. O horror de vários galhos de árvores caídos pelo caminho, ventos fortes que encurvavam as árvores em meio à chuva, o medo de me acidentar naquele espaço, em contrapartida havia o deslumbramento das belas paisagens e de viver aquilo unicamente.

Lembro-me de caminhar apressadamente em meio à mata mais fechada por medo de algum galho nos acertar em cheio. Por vezes, a pressa dava lugar a momentos de descanso em clareiras com vistas arrebatadoras.
Neste dia havia acordado com dores pelo corpo, especialmente dores de cabeça. Logo depois o motivo se revelou: tive que trilhar com o desconforto causado pela menstruação.

O stress muscular dos dias anteriores se revelou conforme chegava os últimos quilômetros da Senda ao Fitz Roy. São cerca de 2km de subida rochosa e, em certo ponto, minhas pernas travaram. Parei, pensei não apenas sobre o caminho, como também sobre as minhas expectativas, o quanto eu havia treinado para estar ali e que havia um longo caminho de volta aguardando. Por fim recuperei o fôlego e valeu a pena.

Qual seria a sua dica para mulheres que querem começar a viajar o mundo?

Seja como for, prossigam e tornem seus sonhos realidade. Sem dúvida é importante se preparar física e tecnicamente para as atividades que deseja fazer. Há trilhas para todos os gostos e que apresentam as mais diversas dificuldades. Certifique-se principalmente de que está com um grupo seguro e que já conhece a trilha que irá fazer. Pesquise muito, peça ajuda a mulheres experientes, elas podem e irão ajudar muito. Não se aventure sozinha. Por fim, aproveite os momentos únicos para se conectar com a natureza, nossa mãe-terra. Desejo caminhos de auto-conhecimento uma vez que juntas somos mais fortes!

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